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Tudo sobre a Síndrome de Gilbert

Todo sobre el Síndrome de Gilbert

Antes de começar, o que faz uma loja de comprar kombucha a falar da Síndrome de Gilbert? É simples. Um dos fundadores da Mūn Kombucha, o Jordi Dalmau, quase trinta anos depois de ser diagnosticado com a doença de Gilbert, encontrou solução para os sintomas que esta lhe provocava a beber kombucha.

Bilirrubina alta

Aos 13 anos, numa análise de rotina, o valor da bilirrubina do Jordi disparou. Fizeram-lhe um teste que colocava o corpo em condições de stress e o resultado foi muito claro: tinha a Síndrome de Gilbert. O prognóstico foi não fazer nada, vida normal, apenas ter presente que nas análises ao sangue o valor da bilirrubina apareceria sempre alterado. E assim foi. Mas com o passar dos anos foram aparecendo outros sintomas: cansaço geral, cada vez menos tolerância ao álcool, contraturas frequentes e dores de cabeça cada vez mais frequentes.

O Jordi foi a um terapeuta e explicou-lhe tudo o que se passava. O terapeuta constatou que todos os sintomas tinham relação com o fígado. No caso concreto dele, recomendou eliminar o paracetamol, reduzir a ingestão de hidratos de carbono, aumentar a de proteínas, reduzir o café e comer tanta variedade de fermentados quanto possível.

Em pouco tempo começou a notar alguma melhoria. Aos poucos foi introduzindo cada vez mais fermentados.

Começou pelos mais fáceis de encontrar ou de fazer: chucrute, kimchi, picles. Depois chegou a vez do kefir, primeiro de leite e depois de água.

Só faltava a kombucha na lista, mas naquela altura foi impossível encontrá-la na ervanária, por isso o Jordi decidiu fazê-la ele próprio. O resultado foi espetacular. Em poucos meses a beber kombucha com regularidade, sobretudo em jejum, o cansaço desapareceu e, pouco a pouco, a dor de cabeça deixou de ser um problema. O Jordi tinha tanta energia que arrancou com o projeto MŪN KOMBUCHA, mas isso já é outra história. Se quiseres mais detalhe, explicamos tudo nesta entrevista.

No caso dele, com uma dieta baixa em hidratos de carbono, com fermentados de forma habitual — sobretudo kombucha —, controlando o stress e o sono e fazendo exercício com regularidade, os sintomas provocados pela Síndrome de Gilbert ficaram sob controlo.

Depois desta introdução, explicamos-te tudo o que fomos reunindo sobre a Síndrome de Gilbert. Ah! E recomendamos-te vivamente que chegues até ao fim para perceberes como a kombucha te pode ajudar se também a tiveres.

O que é a Síndrome de Gilbert

A síndrome de Gilbert, que recebe o nome do gastroenterologista francês Nicolas Augustin Gilbert em 1901, é uma doença benigna, hereditária, associada a um nível elevado de bilirrubina no sangue de forma intermitente, provocado pela deficiência da enzima glucuronosiltransferase. A síndrome de Gilbert é um erro genético que afeta a desintoxicação. O fígado não consegue processar adequadamente a bilirrubina nem eliminá-la do corpo de forma eficaz.

Costuma produzir uma ligeira icterícia em condições de esforço, stress, insónia, cirurgias, jejum, quando há infeções ou após a toma de alguns medicamentos como o paracetamol, já que a concentração de bilirrubina no sangue aumenta nestas situações. A síndrome causa fadiga, entre outros sintomas.

A síndrome de Gilbert deve-se à diminuição da capacidade de excretar bilirrubina. Ao passar pelo fígado, a bilirrubina reage com ácido glucurónico e transforma-se em bilirrubina «conjugada» ou direta, o que permite que se dissolva na água e possa ser excretada na bílis.

A enzima responsável por conjugar a bilirrubina chama-se uridina difosfato glucuronosiltransferase (UGT) e a sua produção é regulada por um gene que, se apresentar uma certa mutação, provoca uma menor produção desta enzima. Na Síndrome de Gilbert, a UGT está reduzida a 31 % do valor normal.

A prevalência da síndrome de Gilbert pode variar. Em África oscila entre 15-25%, em populações caucasianas entre 5-10% e na Ásia entre 0-5%. É mais detetada em homens do que em mulheres.

O que é a bilirrubina

A bilirrubina é o resultado da desintegração dos glóbulos vermelhos envelhecidos, com um pigmento de cor amarela. Circula pelo sangue e chega ao fígado, onde é eliminada através das vias biliares. Depois é expulsa nas fezes. Uma pequena quantidade de bilirrubina permanece no sangue.

Dado-chave

A síndrome de Gilbert é benigna: não requer tratamento nem encurta a vida. Na verdade, a bilirrubina ligeiramente elevada atua como antioxidante e foi associada, em estudos observacionais, a alguma proteção cardiovascular. Mais do que uma doença, é uma particularidade metabólica que convém conhecer e acompanhar com bons hábitos.

As vias de desintoxicação do fígado

Vias de desintoxicação do fígado
Toxinas
Exógenas: medicamentos, pesticidas, toxinas de plantas, álcool, disruptores endócrinos, poluentes.
Endógenas: degradação de hormonas, neurotransmissores, etc.
Fase 1
No fígado: converte as toxinas em metabolitos.
Vias: hidroxilação, epoxidação, desalquilação, desaminação, S- e N-oxidação.
Genes: CYP450 (CYP1A1, 1A2, 2B6, 2C8, 2C19, 2D6, 3A4).
Fase 2
Une o metabolito da fase 1 a outra molécula para o tornar solúvel em água.
Vias: glucuronidação, glucosidação, sulfatação, metilação, acetilação, conjugação com GSH e aminoácidos.
Genes: UGTs, NATs, GSTs, SOD1.
Eliminação
Os compostos solúveis são excretados por:
  • Rins → urina
  • Pele → suor
  • Bílis e intestinos → fezes

No fígado eliminam-se as toxinas. Este processo não é imediato, pois exige duas etapas. Na Fase I do fígado forma-se, modifica-se ou elimina-se (oxidação, redução ou hidrólise) um grupo funcional das toxinas:

  • Hidroxilação
  • Epoxidação
  • Desalquilação
  • Desaminação
  • S- e N-oxidação.

As enzimas que intervêm na fase I são as chamadas Citocromo P450.

Na Fase II estas toxinas combinam-se com outras substâncias e são eliminadas por diferentes vias. O resultado da combinação é mais fácil de eliminar por via renal (na urina) ou hepática (na bílis). As vias de eliminação da Fase II são:

  • Glucuronidação (ácido glucurónico + toxina)
  • Glucosidação (glícido + grupo álcool ou tiol)
  • Sulfatação (trióxido de enxofre + toxina)
  • Metilação (grupo metilo + tóxico)
  • Acetilação (grupo acetilo + tóxico)
  • Conjugação com GSH (glutationa)
  • Conjugação com aminoácidos

O que é a glucuronidação

A glucuronidação é o processo através do qual se combina uma molécula de ácido glucurónico com um tóxico, formando um glucuronídeo. Este glucuronídeo é solúvel em água e é a maneira que o corpo tem de eliminar certos tóxicos. Quem tem Síndrome de Gilbert tem a fase de glucuronidação até 31 % mais lenta do que uma pessoa que não a tem!

Mas pela via da glucuronidação não se elimina só a bilirrubina, eliminam-se outros compostos:

Isto explica por que motivo quem é diagnosticado com a síndrome de Gilbert pode apresentar outras queixas. A relação entre a bilirrubina e a Síndrome de Gilbert é evidente, já que a sua presença elevada no sangue é responsável pela cor amarelada da pele (icterícia). A síndrome de Gilbert está relacionada não só com a bilirrubina, mas com todos os compostos que se eliminam pela via da glucuronidação.

O que é a enzima UGT1A1

O gene UGT1A1 é fundamental para a conjugação da bilirrubina. UGT1A1 é a uridina difosfoglucuroniltransferase 1, uma enzima que catalisa a reação que impulsiona a conjugação da bilirrubina com ácido glucurónico.

Essencialmente, a bilirrubina não conjugada pode seguir um de dois caminhos:

  • Pode voltar a converter-se em biliverdina ao atuar como antioxidante na presença de espécies reativas de oxigénio.
    – ou –
  • Pode conjugar-se com ácido glucurónico e depois ser excretada nas fezes.

O primeiro caminho, atuando como antioxidante, pode tornar-se importante quando as células produzem muitas espécies reativas de oxigénio, como nas doenças cardíacas. E é aqui que entram em jogo os benefícios de uma UGT1A1 baixa e, portanto, de mais bilirrubina. Mais sobre isto a seguir, na secção de benefícios da síndrome de Gilbert.

Com UGT1A1 suficiente disponível, conjuga-se e excreta-se mais bilirrubina.

Decomposição da hemoglobina para formar bilirrubina

A partir dos glóbulos vermelhos envelhecidos

Hemoglobina
Biliverdina
Bilirrubina não conjugadaenzima UGT1A1
Bilirrubina conjugada
Urobilinogénioexcretado · microbiota intestinal

Diagnóstico: como se diagnostica a Síndrome de Gilbert

É habitual que seja descoberta na adolescência por acaso, quando uma análise ao sangue mostra níveis elevados de bilirrubina. Os valores nestes doentes oscilam entre 20 mmol/dl e 80 mmol/dl. Por vezes faz-se uma ecografia para descartar outras patologias. Também é possível fazer um teste genético para estudar o gene UGT1A1, mas é menos habitual pelo seu custo e disponibilidade.

Sintomas da Síndrome de Gilbert

Os níveis elevados de bilirrubina provocam icterícia. A icterícia produz uma cor amarelada na pele e nas conjuntivas dos olhos. A icterícia aparece quando há um estímulo, como um esforço físico excessivo, stress, jejum prolongado, infeções, insónia, cirurgias, alguns medicamentos (paracetamol, quimioterápicos, contracetivos…). Algumas pessoas referem cansaço generalizado, diminuição do apetite, desconforto abdominal ou náuseas. Também é habitual ter dor de cabeça, sensação de ressaca e ter uma baixa tolerância ao álcool.

A Síndrome de Gilbert causa fadiga? Síndrome de Gilbert e cansaço:

A fadiga é um dos sintomas mais reportados por quem tem Gilbert. Porquê? Explicamos-te:

  • Função hepática reduzida. Se comes hidratos de carbono muito refinados, como pão branco ou doces, o teu nível de açúcar no sangue sobe e desce muito. Isto significa que a enzima de que somos deficientes não consegue funcionar tão bem, já que precisa de açúcar. O resultado é que o fígado não faz o seu trabalho de limpeza de forma eficaz e certas toxinas e bilirrubina acumulam-se no teu corpo.
  • Esvaziamento gástrico retardado. A comida demora mais tempo a sair do estômago se tiveres a síndrome de Gilbert. De certeza que muitos reconhecem o desconforto abdominal que isto traz!
  • Excesso de serotonina. As pessoas com síndrome de Gilbert têm um processamento deficiente de certos neurotransmissores (substâncias químicas que enviam mensagens ao cérebro e ao sistema nervoso). Isto pode levar a níveis elevados de serotonina, por exemplo, o que está relacionado com sensações de letargia e falta de motivação, bem como com ansiedade.

Icterícia e sintomas da síndrome de Gilbert

Embora muitas pessoas sejam diagnosticadas com a síndrome de Gilbert através de análises ao sangue de rotina, outras podem ter sintomas que as levem a ir ao médico.

Num inquérito a doentes diagnosticados com a síndrome de Gilbert, cerca de metade tinha icterícia recorrente. Aproximadamente metade das pessoas com icterícia recorrente referiu dor abdominal, dispepsia ou perda de apetite.

Os fatores de risco associados à causa dos episódios de icterícia incluíram:

  • Jejum durante mais de 12 horas.
  • A gravidez.
  • dietas baixas em calorias.
  • Consumo de álcool.
  • Dormir menos do que o recomendado.
  • Infeções.
  • Anestesia.
  • Atividade física intensa.

Síndrome de Gilbert e paracetamol

O paracetamol, também conhecido como acetaminofeno, é um medicamento com propriedades analgésicas e antipiréticas que se prescreve para tratar episódios de febre ou dor ligeira a moderada. É eliminado principalmente através do fígado pela via metabólica da glucuronidação. É habitual que quem tem SG tenha dores de cabeça frequentes e, se não lhe foi contraindicado, tome paracetamol para as aliviar. Sem saber, o que está a fazer é sobrecarregar ainda mais o fígado. Por este motivo, o consumo de paracetamol está normalmente contraindicado em quem tem Gilbert.

Neste estudo investigou-se como a síndrome de Gilbert afeta o metabolismo do paracetamol em 18 pessoas com SG e 32 voluntários saudáveis. Descobriram que as pessoas com SG têm um metabolismo heterogéneo e, nalguns casos, uma redução na glucuronidação do paracetamol e um aumento na oxidação, o que poderia aumentar o risco de dano hepático após uma sobredosagem.

Tratamento para a Síndrome de Gilbert

Em geral, a Síndrome de Gilbert não precisa de tratamento, mas se os sintomas provocam mal-estar podem procurar-se formas de os aliviar ou manter sob controlo. É preciso atuar sobre 4 pilares:

  1. Boa alimentação
  2. Exercício físico
  3. Bom sono
  4. Resiliência mental

Dieta para a Síndrome de Gilbert

O tratamento para a Síndrome de Gilbert deve orientar-se para a redução dos tóxicos a eliminar pela via da glucuronidação ou para melhorar o rendimento da glucuronidação e das enzimas UGT.

Reduz a ingestão de hidratos de carbono, em especial os que vêm de alimentos refinados, como as farinhas ou os açúcares. Aumenta o consumo de proteínas e gorduras. Ainda não há estudos suficientes, mas uma dieta paleo ou keto poderia melhorar os níveis de bilirrubina.

Os vegetais crucíferos fazem com que o corpo aumente a produção de UGT1A1. Os vegetais crucíferos incluem brócolos, couve-galega, couves-de-bruxelas, couve-flor e repolho.

Se não comes crucíferos suficientes, há suplementos disponíveis de I3C e DIM (diindolilmetano). Estes são produzidos a partir da parte dos vegetais crucíferos que induz a UGT1A1.

A quercetina (um suplemento de flavonoides) e a curcumina (da cúrcuma) aumentam a atividade da enzima UGT, segundo um estudo em animais.

Os alimentos de eleição para o fígado incluem: brócolos, alho, cúrcuma, abacate, beterraba, maçãs, limões e nozes.

Alimentos proibidos com a Síndrome de Gilbert

Em geral não há nenhum alimento a evitar. Em contrapartida, é aconselhável comer de forma saudável e consumir vegetais e fruta em quantidade suficiente. Também é importante não saltar refeições, ou seja, procurar uma rotina, garantindo calorias suficientes por dia e não fazer jejum.

É importante incluir alimentos ricos em fibra para manter o fígado saudável. Inclui no teu dia a dia fruta, legumes, cereais integrais e leguminosas.

A desidratação também pode desencadear a síndrome de Gilbert. A desidratação pode provocar um aumento dos níveis de bilirrubina. A cafeína também pode atuar como diurético. Bebe o suficiente para evitar a desidratação e controla a ingestão de café.

O único alimento a reduzir ou eliminar seria o álcool.

Síndrome de Gilbert e álcool

É muito habitual que quem tem a síndrome de Gilbert tenha uma tolerância mais baixa ao álcool, ou simplesmente não o tolere. Por vezes, uma pequena quantidade de álcool pode produzir uma sensação de ressaca desproporcionada.

O álcool é metabolizado muito rapidamente no corpo e é absorvido e metabolizado antes da maioria dos outros nutrientes. Cerca de 20% é absorvido diretamente através das paredes de um estômago vazio e pode chegar ao cérebro num minuto. O álcool é metabolizado no estômago e no intestino delgado antes de ser levado até ao fígado. O fígado é o único órgão do corpo capaz de produzir enzima suficiente para oxidar o álcool a uma velocidade apreciável. O álcool afeta todos os órgãos do corpo, mas o seu impacto mais marcado é no fígado, já que altera permanentemente a estrutura celular do fígado, o que compromete a sua capacidade de metabolizar gorduras. Se o fígado não consegue processar todo o álcool que recebe, o excesso de álcool viaja para todas as partes do corpo. Para as pessoas com a síndrome de Gilbert, o álcool aumentará provavelmente os níveis de bilirrubina e pode provocar uma ressaca que aparece rapidamente e pode durar vários dias.

Síndrome de Gilbert e jejum intermitente

Quando não comes durante 12 a 24 horas, aumenta a mobilização de bilirrubina do tecido gordo, que pode passar para o sangue e desencadear um episódio de icterícia. Da mesma forma, uma dieta muito baixa em gorduras ou baixa em calorias também pode estimular os sintomas da icterícia. Por isso, algumas pessoas com síndrome de Gilbert optam por uma dieta paleo ou cetogénica com alto teor de gorduras.

Exercício físico

Idealmente, o exercício deveria ser uma combinação de atividades que aumentem o ritmo cardíaco e que exijam da postura e dos músculos, tanto em flexibilidade como em densidade. Caminhar a passo rápido combinado com pilates é simples, gratuito e energizante. Tenta fazer as deslocações a pé. Até estar de pé enquanto fazes outra atividade envolve os músculos. Cada pequeno movimento ajuda-te a manteres-te em forma e bem. Introduz o exercício de força, vídeos como este podem ajudar-te.

Sono de boa qualidade

O sono de boa qualidade é vital para todos. Também, e sobretudo, para quem tem Síndrome de Gilbert. A investigação mostra que o nosso ritmo circadiano (o nosso relógio biológico) é muito importante para nos sentirmos despertos e dormirmos bem. O simples facto de garantires que o teu quarto está mesmo escuro pode fazer uma grande diferença no teu relógio biológico. Apanhar muita luz de manhã também te ajudará a sentires-te alerta e desperto durante o dia e a dormir melhor à noite. Evita também a luz azul.

Resiliência mental

A resiliência mental é uma qualidade que muitos de nós sentimos que poderíamos desenvolver mais. Permite-te pôr os altos e baixos da vida em perspetiva. Com resiliência mental, lidas melhor com as situações em que acontece algo mau no teu dia ou na tua vida, e preocupas-te menos com isso. Isso não quer dizer que não devas preocupar-te, zangar-te, ficar triste ou não ter sentimentos. Significa que podes fazer essas coisas naturais e depois avançar com o tempo. Podes também consultar esta página para melhorar a tua resiliência.

Síndrome de Gilbert e depressão

Estudos recentes sugerem que poderia existir uma ligação entre esta síndrome e a depressão. Esta relação não se deve necessariamente à natureza direta do distúrbio hepático, mas antes à forma como os sintomas crónicos, como a fadiga e o mal-estar geral, podem afetar o bem-estar emocional e mental das pessoas. A gestão constante de um estado de saúde crónico, a par da diminuição da capacidade para participar em atividades do dia a dia, pode aumentar o risco de desenvolver sintomas depressivos. Por isso, é fundamental que os doentes com Síndrome de Gilbert recebam um acompanhamento integral que aborde tanto os aspetos físicos como os psicológicos da doença, garantindo uma abordagem holística para o seu bem-estar geral.

Microbioma intestinal e bilirrubina

Depois de a bilirrubina se conjugar com a enzima UGT1A1, é libertada nos intestinos a partir do fígado através da bílis. Em seguida, as bactérias da microbiota intestinal desconjugam o ácido glucurónico da bilirrubina. Depois, a bilirrubina oxida-se e reduz-se, formando finalmente estercobilina (excretada nas fezes) ou urobilina (reabsorvida e excretada na urina).

A reação de desconjugação é facilitada pela β-glucuronidase, uma enzima produzida por bactérias intestinais. Assim, o microbioma intestinal afeta a forma como a bilirrubina é excretada através da urina ou das fezes.

Benefícios da Síndrome de Gilbert

Por estranho que pareça, a síndrome de Gilbert não só não é prejudicial como cada vez mais estudos apontam para que a bilirrubina ligeiramente elevada que a caracteriza possa ser protetora. A chave está em que a bilirrubina é um dos antioxidantes endógenos mais potentes do organismo: neutraliza radicais livres e trava a oxidação das gorduras (lípidos), um processo implicado em boa parte das doenças crónicas. Convém ler estes resultados com cautela — são na sua maioria estudos observacionais, que mostram associação e não necessariamente causa —, mas o conjunto é suficientemente consistente para o ter em conta.

Numa frase: o que parece um defeito do fígado — processar a bilirrubina mais devagar — deixa no sangue um antioxidante natural que se associa a menor risco cardiovascular, hepático e respiratório, e até a menor mortalidade.

Proteção contra o risco cardiovascular

A bilirrubina atua como antioxidante no sangue e protege as lipoproteínas (como o colesterol LDL) da oxidação, um passo precoce no desenvolvimento da doença coronária. Vários estudos encontraram uma redução significativa do risco de doença coronária em pessoas com síndrome de Gilbert face a quem tem bilirrubina normal. Não significa que a síndrome «cure» o coração, mas sim que os seus níveis um pouco mais altos de bilirrubina parecem acompanhar um perfil cardiovascular mais favorável.

Proteção contra a aterosclerose

Na mesma linha, um dos efeitos mais estudados de uma bilirrubina elevada é a menor acumulação de placa aterosclerótica nas artérias. Ao travar a oxidação do LDL e reduzir a inflamação da parede arterial — os dois motores da aterosclerose —, a bilirrubina dificulta a progressão da placa. É o mecanismo que melhor explica por que motivo as pessoas com síndrome de Gilbert tendem a apresentar artérias mais saudáveis nos exames de imagem.

Proteção contra doenças respiratórias crónicas

O pulmão também beneficia desse efeito antioxidante. Um estudo do Reino Unido seguiu pessoas nascidas em 1946: muitas tinham fumado, e as que tinham síndrome de Gilbert apresentaram menos DPOC e asma do que as de bilirrubina normal. A hipótese é que a bilirrubina amortece o stress oxidativo que o fumo e a poluição provocam nas vias respiratórias. Não é uma licença para fumar — o tabaco continua a ser o principal fator de risco —, mas ilustra o alcance deste antioxidante natural.

Proteção contra o fígado gordo (NAFLD)

Os estudos em animais mostram que as variantes do gene UGT1A1 que elevam a bilirrubina também reduzem o risco e a gravidade da doença do fígado gordo não alcoólico (NAFLD). E não fica pelo laboratório: uma metanálise com mais de 100.000 participantes concluiu que os níveis mais altos de bilirrubina se associam a uma menor probabilidade de NAFLD. Uma vez mais, a bilirrubina parece proteger o fígado do excesso de gordura e da inflamação que o acompanha.

Menor mortalidade geral

O dado mais marcante: um estudo com mais de 4.200 pessoas com síndrome de Gilbert e cerca de 22.000 com bilirrubina normal observou que a mortalidade ajustada era aproximadamente 50 % menor no grupo com síndrome de Gilbert. É um resultado observacional e não demonstra que a síndrome «prolongue a vida» por si só, mas encaixa em tudo o anterior: se a bilirrubina protege o coração, as artérias, os pulmões e o fígado, faz sentido que esse conjunto se traduza numa maior esperança de vida. Mais do que uma doença, a síndrome de Gilbert começa a entender-se como uma vantagem metabólica com a qual se pode viver perfeitamente.

Tóxicos e Síndrome de Gilbert

O gene UGT1A1 também é responsável por decompor BPA (nos plásticos) e BPF. Quem tem esta condição deveria evitar estas substâncias.
Os produtos químicos perfluorooctanoato (PFOA) e sulfonato de perfluorooctano (PFOS) inibem a UGT1A1.

Medicamentos contraindicados com a Síndrome de Gilbert

O medicamento de uso mais comum que quem tem a Síndrome de Gilbert deve evitar é o acetaminofeno, mais conhecido como paracetamol, já que a sua eliminação passa justamente pela fase hepática da glucuronidação. Na lista a evitar estão também as estatinas, gemfibrozil, irinotecano, nilotinib.

Famosos com a Síndrome de Gilbert

Alguns estudos sugeriram que Napoleão poderá ter tido a Síndrome de Gilbert. De facto, está documentado que apresentava icterícia com frequência e outros sintomas compatíveis com esta condição.

Mais recentemente, em 2017, o piloto alemão de MotoGP, Jonas Folger, teve de interromper a sua participação na competição por um surto provocado pela Síndrome de Gilbert. «As últimas 6 semanas foram muito difíceis para mim, sem saber o que me estava a acontecer ou por que motivo o meu corpo se desligou por completo», esclareceu depois do episódio.

Paz Padilla, atriz e apresentadora de televisão, declarou que era «abstémia para toda a vida». Segundo explicou, o motivo por que não inclui álcool na sua vida é ter Síndrome de Gilbert e, literalmente, não tolerar a sua ingestão. «Não digiro o álcool, não o assimilo», concretizou Padilla.

Jordi González, apresentador de televisão, também é afetado por esta condição. González tem relatado amplamente como o afeta ter Síndrome de Gilbert. Entre outras coisas, referiu que tem também intolerância ao álcool.

A kombucha pode ajudar com a síndrome de Gilbert?

Para uma correta eliminação de tóxicos pela via da glucuronidação, reduzida no caso de quem tem Síndrome de Gilbert, é necessário ácido glucurónico. O ácido glucurónico é produzido no fígado e combina-se com os tóxicos para que sejam solúveis em água e possam ser expulsos do corpo. Numerosos estudos confirmam que a kombucha, como resultado da fermentação, tem pequenas quantidades de ácido glucurónico. Além disso, a kombucha contém ácido sacárico. O ácido sacárico intervém também no processo da glucuronidação, mas de outra forma: a glucuronidase é uma enzima que se produz no nosso intestino e quebra a ligação entre uma molécula de ácido glucurónico e um tóxico.

Ora bem, o ácido sacárico inibe a glucuronidase, o que aumenta o rendimento do ácido glucurónico produzido pelo corpo! Se quiseres ler ainda mais informação neste sentido, o Marc Vergés explica-o neste artigo que escreveu para o nosso blogue.

Se tens Síndrome de Gilbert, talvez seja boa ideia começar a tomar kombucha de forma regular. Tem em conta que a kombucha pode conter pequenas quantidades de álcool. Alguns Gilbert nem sequer toleram estas quantidades baixas de álcool. Começa com pequenas quantidades de kombucha e observa como o teu corpo reage. Se vires que não tem efeitos negativos no teu corpo, vai aumentando progressivamente a quantidade de kombucha a beber por dia e procura um ponto de equilíbrio.

Perguntas frequentes sobre a Síndrome de Gilbert

O que é a Síndrome de Gilbert?
A Síndrome de Gilbert é uma condição genética comum e benigna que afeta a forma como o fígado processa a bilirrubina, um produto residual da degradação dos glóbulos vermelhos.
Quais são os sintomas da Síndrome de Gilbert?
Os sintomas mais comuns incluem icterícia ligeira (coloração amarelada da pele e dos olhos), fadiga e, nalguns casos, dor abdominal. Muitas pessoas com esta condição não têm sintomas notórios.
A Síndrome de Gilbert é perigosa?
Não, geralmente não é perigosa. É uma condição benigna que raramente leva a problemas de saúde graves.
Como se diagnostica a Síndrome de Gilbert?
Muitas vezes é diagnosticada através de análises ao sangue que mostram níveis elevados de bilirrubina indireta, sobretudo depois de jejum ou durante períodos de doença.
Existe algum tratamento para a Síndrome de Gilbert?
Não é necessário tratamento específico para a Síndrome de Gilbert, já que geralmente não causa problemas de saúde significativos. A gestão dos sintomas, quando necessária, costuma ser suficiente.
A Síndrome de Gilbert pode causar complicações?
Na maioria dos casos, não causa complicações sérias. No entanto, a icterícia e a fadiga podem ser preocupantes para algumas pessoas.
A Síndrome de Gilbert é hereditária?
Sim, é uma condição genética hereditária. Transmite-se de pais para filhos através de um padrão autossómico recessivo.
O consumo de kombucha pode ser benéfico para as pessoas com Síndrome de Gilbert?
O consumo de kombucha poderia oferecer alguns benefícios às pessoas com Síndrome de Gilbert, embora a evidência científica seja limitada e os resultados possam variar entre indivíduos. A kombucha é conhecida pelo seu teor de ácido glucurónico , um composto que desempenha um papel na desintoxicação hepática , processo que pode estar comprometido em pessoas com esta síndrome. Ao facilitar a conjugação e a eliminação da bilirrubina, o ácido glucurónico poderia ajudar a gerir os níveis desta substância no corpo. No entanto, é importante ter em conta que a kombucha também pode conter pequenas quantidades de álcool e cafeína, substâncias que algumas pessoas com a síndrome.
A Síndrome de Gilbert pode afetar a gravidez?
Na maioria dos casos, não afeta a gravidez nem causa complicações durante a mesma. No entanto, é importante informar o médico sobre esta condição.
Como afeta a Síndrome de Gilbert a dieta?
Não exige uma dieta especial, mas recomenda-se evitar o jejum prolongado e o consumo excessivo de álcool, já que podem elevar os níveis de bilirrubina.
Existe uma ligação entre a Síndrome de Gilbert e a depressão?
Embora não haja uma relação direta, a gestão de qualquer condição crónica, incluindo a Síndrome de Gilbert, pode afetar o bem-estar emocional e contribuir para a depressão nalguns casos. É importante abordar estes aspetos com um profissional de saúde.

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