por Marc Vergés, dietista integrativo
A síndrome de Gilbert – Meulengracht é uma doença autossómica que cursa com hiperbilirrubinemia não conjugada na ausência de doença hepatocelular ou hemólise. Nestes doentes a atividade da uridina difosfato-glucuronil transferase reduz-se a 30% do normal. (1) o que se traduz em hiperbilirrubinemia indireta elevada. Afeta entre 4 e 16 por cento da população, e é durante a adolescência, quando há um aumento de esteroides sexuais que afeta o metabolismo da bilirrubina, o momento em que surge habitualmente (2).
Figura 1. Prevalência geográfica da hiperbilirrubinemia benigna
Existem genótipos (pessoas com expressões genéticas alteradas) que cursam com uma diminuição da atividade de uma enzima, a UGT1A1, (diminuição de entre 10 e 35%) esta enzima é a necessária para conjugar o ácido glucurónico com a bilirrubina para que possa ser hidrossolúvel e assim possa ser excretada pela bílis para o intestino. (2)
Caracterização da Síndrome de Gilbert
A síndrome de Gilbert – Meulengracht caracteriza-se pela incorreta eliminação da bilirrubina devido à incapacidade do organismo de a expulsar através do ácido biliar corretamente conjugado. A consequência mais visível desta acumulação de bilirrubina no sangue é a aquisição de um tom amarelado na pele.
Outra consequência não tão visível tem que ver com as hormonas como os estrogénios, que não poderão ser eliminados corretamente e, do mesmo modo, muitos medicamentos como antirretrovirais (Atazanavir, Indinavir..), paracetamol intravenoso, Irinotecano ou tolbutamida entre outros podem produzir toxicidade por não serem eliminados corretamente.
Mas existem ainda outras consequências pouco visíveis; depois de a bilirrubina no sangue ajudar a degradar os glóbulos vermelhos desgastados, viaja até à vesícula biliar para poder fazer parte dos processos de digestão dos lípidos, atuando ao mesmo tempo como agente de eliminação de resíduos (como os medicamentos ou a bilirrubina oxidada) que serão excretados para o intestino.
Em suma, falha o processo hepático chamado glucuronidação. Se os canais biliares estão inflamados, não é possível uma boa digestão e muito menos uma correta gestão de resíduos, produzindo más digestões e maior toxicidade no sangue, podendo gerar maior facilidade em sofrer doenças do sistema circulatório, inflamatórias e/ou oxidativas. Se não se produz bílis suficiente, haverá sobretudo uma má digestão das gorduras já que é necessário ácido biliar para que sejam bem hidrolisadas e absorvidas; vão gerar-se gases, inflamação abdominal e alteração da consistência das fezes.
Os níveis de bilirrubina no sangue aumentarão pela taxa ou nível de catabolismo do heme, a absorção de bilirrubina no intestino, a excreção hepática e o transporte transepitelial do sangue para o intestino. (3) Os afetados pela síndrome de Gilbert terão maior possibilidade de produzir cálculos biliares (2), mas a síndrome de Gilbert também pode ter alguma vantagem, devido ao poder antioxidante que lhe conferem os níveis de bilirrubina no sangue, com menos incidência de cardiopatia isquémica ou de diferentes tipos de cancro como o de Hodgkin. (2,4,5).
Kombucha e Síndrome de Gilbert
O chá de kombucha é uma bebida fermentada, ligeiramente ácida, que se produz a partir da fermentação das folhas de chá (Camellia sinensis) dando lugar a um conjunto de bactérias acéticas que incluem Acetobacter xylinum , A. xylinoides ou Bacterium gluconicum e leveduras como Saccharomyces cerevisiae , S. ludwigii , Zygosaccharomyces bailii , Z. rouxii , Schizosaccharomyces pombe , Torulaspora delbrueckii , Brettanomyces bruxellensis , B. lambicus , B. custersii , Candida sp., OPichia membranaefaciens. (6) A bebida probiótica de kombucha pode elaborar-se a partir da fermentação de diferentes variedades de chá: verde (o mais habitual), Oolong ou preto.

Existem preparações com rooibos que mantêm as mesmas propriedades que a bebida fermentada com os chás anteriores, mas sem teína e com menor conteúdo de ácido acético e etanol (9), interessante para pessoas sensíveis à cafeína e com baixa tolerância ao sabor ácido. No entanto, o rooibos não é da família da Camellia Sinensis e não contém taninos, que são fundamentais para que se possa produzir kombucha lote após lote. Também se fizeram fermentações com folhas de carvalho, com resultados de maior capacidade anti-inflamatória ao reduzir as citocinas pró-inflamatórias Il-6 e TNF-alfa, diminuindo o stress oxidativo (10).
| Kombucha | Glucurónico | Glucónico | DSL | Ascórbico | Acético | Succínico |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Chá verde | 1,37 | 41,42 | 3,44 | 0,61 | 10,42 | ND |
| Chá oolong | 0,07 | 48,75 | 4,02 | 0,60 | 10,48 | ND |
| Chá preto | 1,58 | 70,11 | 5,23 | 0,70 | 11,15 | 3,05 |
Valores médios (g/L). DSL: ácido D-sacárico-1,4-lactona. ND: não detetado. O chá preto apresenta o maior conteúdo total de ácidos orgânicos; o chá verde destaca-se nos polifenóis.
Fonte: Kaewkod T, Bovonsombut S, Tragoolpua Y. Efficacy of Kombucha Obtained from Green, Oolong, and Black Teas on Inhibition of Pathogenic Bacteria, Antioxidation, and Toxicity on Colorectal Cancer Cell Line. Microorganisms (2019).
A kombucha preparada a partir de chá preto apresentou valores mais altos de conteúdo de ácido orgânico em termos de ácido glucurónico, glucónico, DSL, ascórbico, acético e succínico, em comparação com o chá oolong e o chá verde. O chá verde em segundo lugar. Verificou-se que o nível mais alto de conteúdo de ácido orgânico no chá de kombucha é o ácido glucónico. O ácido glucurónico presente na kombucha tem sido associado a uma série de benefícios para o fígado. O ácido glucurónico desempenha um papel importante na desintoxicação do fígado e no processo associado à excreção de químicos exógenos conhecido como glucuronidação. (6) É precisamente por este motivo (a presença de UDP-ácido glucurónico) que resulta um probiótico ou simbiótico interessante para doentes com síndrome de Gilbert. A bebida Kombucha pode ter efeitos de limpeza biliar, concretamente da vesícula biliar (7), beneficiando possíveis candidatos a colecistectomia em doentes com risco genético ou por má epigenética.
O ácido UDP-glucurónico tem três funções principais (8):
- Desintoxicação de substâncias venenosas mediante conjugação e posterior eliminação.
- Transporte de hormonas e outras substâncias importantes através da conjugação e posterior libertação no local alvo, tecido, etc.
- Intermediário na biossíntese de ácido ascórbico (exceto em primatas e cobaias).
O inimigo do ácido glucurónico ou da glucuronidação: a beta-glucuronidase.
A beta-glucuronidase é uma enzima produzida por bactérias intestinais como a E. coli e pode anular os efeitos positivos da glucuronidação.(11) Desta forma, reativar-se-iam os tóxicos anulados pela glucuronidação. Isto pode contribuir para o aparecimento de diferentes tipos de cancro, como o do cólon ou os hormono-dependentes da mama e da próstata.(12,13)
Os níveis de beta-glucuronidase aumentam se:
- As gorduras saturadas predominam na dieta.(14)
- Tens excesso de peso (14)
- És homem (14)
- És veterano/a (15)
- És fumador (15)
- Tens o fígado inflamado ou cancro do cólon.(16)
Para contrariar a beta-glucuronidase:
Come uma dieta baseada em vegetais, como a abóbora, a abóbora, a courgette, o pepino e a melancia, maçãs, peras, ameixas, cerejas, pêssegos, framboesas e morangos) e as leguminosas (ervilhas e feijões). ) (17) No entanto, outro estudo com 63 voluntários encontrou um aumento desta enzima numa dieta enriquecida com crucíferas, citrinos e soja. (18) A bebida fermentada de Kombucha também exerceu redução desta enzima (19). A restrição calórica em macacos e ratinhos também melhorou a diminuição da beta-glucuronidase (20), embora na Gilbert possa não cair bem fazer jejuns longos, pode jejuar-se em períodos de 12 horas em forma de jejum intermitente e, segundo a minha experiência clínica, em alguns casos podem aumentar-se as horas de jejum se se ingerir kombucha durante o período do pequeno-almoço, não ultrapassando as 16 horas de jejum intermitente, ou seja, um 16/8 (16 horas de jejum e 8 horas de ingestão adequada). (Não se devem praticar jejuns longos sem a supervisão de um especialista) Marc Vergés
Bibliografia
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Licenciado em Nutrição Humana, fitoterapeuta e especialista em suplementação, além de treinador desportivo. Especializado em inflamação e doenças autoimunes, com cerca de 25 anos de experiência. Autor dos livros Grasas buenas: cuida tu salud con la nutrición evolutiva e Paleo dieta para deportistas. Defende o papel dos alimentos fermentados —como a kombucha— dentro de uma alimentação anti-inflamatória.

















